O Dia que Pareceu o Fim do Mundo!!
Dizem que o tempo cura tudo, mas em Rio Branco do Sul e Bocaiúva do Sul, há uma cicatriz que nem o passar das décadas conseguiu fechar. Quem caminha hoje pelas bandas de Santana ou pelo Boqueirão da Serra pode até ver o verde das matas, mas, se apurar o ouvido, ainda escuta o eco do estrondo que mudou tudo entre 1972 e 1973.
Não foi apenas uma chuva. Foi um acerto de contas do céu com a terra.
O Mistério das Duas Horas
Eram duas horas da tarde quando o céu, até então comum, vestiu-se de um breu assustador. O que se seguiu não foi o gotejar manso das tardes de verão. Durante exatas duas horas, até as 16:00h, o mundo parecia estar sendo lavado por um balde infinito.
Mas os antigos, aqueles que carregam a verdade nos olhos cansados, juram que a conta não fecha. “Não foi só a chuva”, dizem eles em tom de segredo. O povo conta que os morros, saturados e pesados, literalmente se rasgaram e as águas jorraram das profundezas, despejando um mar que a natureza guardava escondido no ventre das montanhas.
O Fim da Empresa na Santana
A força foi tamanha que o progresso da época foi tratado como brinquedo de criança. A Empresa que operava na Santana, foi varrida do mapa. Máquinas pesadas, caminhões de toneladas e instalações robustas foram arrancados do chão como se fossem feitos de papel. Onde havia o barulho dos motores e o suor do trabalho, restou apenas o silêncio do barro. A vila de moradores que abrigava as famílias e os sonhos foi levada pela correnteza, não deixando pedra sobre pedra.
O Lamento das Águas
A tragédia, porém, não levou apenas ferro e madeira. A parte mais triste dessa memória repousa em Bocaiúva do Sul. O rio, transformado em um monstro de lama, levou consigo duas meninas. Seus corpos só foram devolvidos pela natureza dias depois, a dezenas de quilômetros dali, como se a água quisesse mostrar a extensão de sua fúria.
Nos quintais, o prejuízo era total. O gado, os porcos e as criações domésticas sumiram no turbilhão. Quem sobreviveu, assistiu de longe, impotente, enquanto a vida passava boiando rumo ao desconhecido.
Uma Memória Viva
Hoje, mais de 50 anos depois, a “Grande Enchente” ainda é o marco zero de muitas conversas nas varandas da região. Não se sabe ao certo o porquê de tanta água em tão pouco tempo. Para a ciência, talvez um fenômeno meteorológico raro; para o povo de Rio Branco e Bocaiúva, foi o dia em que a natureza revelou sua face mais indomável. Quem viveu, não esquece. Quem ouve, se arrepia. Porque naquelas duas horas de 1972, o homem entendeu que, diante da força de um dilúvio, somos todos passageiros.
