Capela caiçara de Maresias completa 109 anos

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26/03/2019 - 00h00min

Rafael César | rafaecesar@expressolitoral.com.br

Além de Maresias, Paúba, Boiçucanga, Barra do Una, Barra do Sahy, Toque-Toque Pequeno, Toque-Toque Grande e Cambury possuem locais sagrados com o mesmo perfil


Com quase 110 anos, a Capela de São Benedito e Sant’Anna do bairro de Maresias, localizada na Costa Sul de São Sebastião, traz a história de três famílias caiçaras em sua fundação. O município sempre teve muitos devotos e peregrinos que construíram oratórios através da pesca.

É fácil encontrar capelas datadas de 1910 até 1940 por muitos vilarejos, bairros e na própria região central da localidade. De acordo com os livros de história, o catolicismo veio com os portugueses e o sincretismo religioso também. Por isso, pode-se dizer que a fé e a crença das comunidades caiçaras do começo do século XX foram conectadas pelo mar.

A Capela de Maresias é caiçara por ter sido construída por todo o povoado da época. O terreno foi uma doação da família Cesar e as imagens dos Santos foram dadas pela família Sales e Moura Santos Moreira, que sempre se reuniam para orações.

Segundo Dona Maria Aparecida Cesar Ferreira Bueno, 82 anos, que foi uma das responsáveis por oficializar a doação para Diocese de Santos, a Capela tem mais do que 109 anos.

– A Capela foi inaugurada em missa episcopal no ano de 1910. Teve também o episódio em quetrês homens pagaram uma promessa e ergueram a torre da Capela. Entretanto, existia uma estrutura mais antiga que tinha muitos anos a mais – comentou Dona Maria.

A experiente caiçara afirma que raramente vinham padres celebrar novenas, hinos e devoções cristãs no período em que a Diocese de Santos era a responsável pela Capela. Com a criação da diocese de Caraguatatuba, a situação começou a melhorar porque havia uma proximidade maior entre a cidade que coordenava o local divino.

A nora de Dona Maria, Samanta Anderson Bueno, fez um levantamento da história quando a Capela estava com 100 anos. Samanta conta que a ladainha que ocorria antigamente era em latim.

– Além da pesca, haviam leilões realizados para arrecadar verba para manter a pequena igreja. Após um tempo, esses leilões foram substituídos por barracas de comidas típicas e bebidas – explica Samanta.

Para Plínio Ricardo Bueno, 47 anos, filho de Dona Maria e esposo de Samanta, muito da cultura caiçara vem se perdendo no decorrer dos tempos e aquela fase de tempos de ouro não voltam mais. 

– Na catequese, a molecada brigava para quem sairia nas festividades com a roupa de anjo. Muita coisa se perdeu no decorrer dos tempos e com as mudanças de administração da Capela as tudo piorou. Minha mãe teve até problemas judiciais por ter divergências com um padre que passou pela Capela – disse Plínio.

 

O padre 

Benedito César Sobrinho, mais conhecido como Seu Dito, 79 anos, não precisou de seminário para ensinar a palavra de Deus por quase 51 anos.

Tudo começou em um belo domingo. Quando Benedito Cesar Sobrinho, irmão de Dona Maria, 79 anos, foi fechar a igreja para atender um pedido feito pela mãe dele. No momento que saiu da Capela, encontrou um grupo de senhoras que esperava ansiosas para a missa. O que elas não sabiam é que não haveria missa e nem padre, pois o sacerdote não conseguira vir de Santos naquele dia. 

– Então, tomei uma atitude que mudou a minha vida. Perguntei se elas queriam que eu ministrasse a missa e elas responderam que sim, a partir daí, peguei paixão por transmitir a palavra de Deus. Tudo aconteceu assim do nada – relembra Seu Dito.

Considerado no bairro por muitos como um senhor de coração grande que afirma: “O maior milagre é o sorriso de uma criança”. Seu Dito é um padre caiçara que aprendeu as palavras de Deus por ter sido autodidata. Apesar de sofrer com a perda de memória, o caiçara recorda muitas histórias inesquecíveis.

–Vieram pessoas da Igreja de Aparecida para me levar para fazer o seminário, a faculdade de teologia e filosofia para me tornar padre gabaritado. Contudo, a minha mãe não autorizou a minha ida. Apesar disso, continuei atuando na administração e oratórias da Capela por anos – conta Seu Dito.

De acordo com Seu Dito, a catequese chegou a ter 250 crianças participando diretamente e havia uma união muito grande entre o povoado.

– Em uma missa do galo realizada pelo padre, os animais foram doados pela comunidade em cima da hora. A batucada de Santo Reis era feita nas calçadas, era uma animação só – disse o caiçara.

Para ele, o padroeiro do bairro e da Capela é apenas São Benedito por ter sido a primeira imagem a chegar na igreja.

– Esse Santo é milagroso. Tinha um cerco chamado ‘Cerco da Sociedade’ que pertencia a várias famílias do bairro. Nesse tempo, havia uma rivalidade com outro cerco que ficava perto de Paúba que causou um confusão danada. Alguém mandou lanchas em direção de Maresias para fechar o cerco, de repente, o mar virou e surgiu uma tempestadedo nada que fez os fiscais desistirem da missão de acabar com a nossa rede – conta o padre.

 

O vizinho da Capela

“Maresias foi um bairro que se formou ao redor da igreja igual a muitos outros pelo município. A família do meu pai era de Maresias e a da minha mãe de Juquehy, eu vivi entre os dois bairros na minha infância. Depois fui para o interior e depois Santos, quando veio a “Crise do Governo Collor” tive que me mudar para esta casa que era do meu pai porque não tinha como me manter mais em um grande centro”, fala João Luís Cesar, 64 anos, vizinho da Capela.

Na opinião dele, é um privilégio morar ao lado de um imóvel centenário que carrega a história de Maresias. Ele acompanhou o desenvolvimento da região a olho nu e assistiuo crescimento dessa parte do Litoral Norte.

– Antigamente, tudo isso aqui era mato. As ondas chegavam no quintal da minha casa – recorda.

Seu João é um caiçara que nunca gostou de pescar (igual ao Seu Dito), mas lembra que pegar fruta no pé, casar passarinho e jogar bola nas ruas era com ele mesmo. Na infância,o vizinho da Capela acompanhava o processo da produção da farinha de mandioca (conhecido entre os antigos como trafego de farinha) e chegou a ajudar em alguns instantes.

– Tudo era artesanal antes da construção da Rio-Santos. Muitos caiçaras largaram a pesca para trabalhar na obra e as coisas foram evoluindo. Eu sabia que um dia Maresias se tornaria paraíso para os negócios imobiliários e resisti as inúmeras tentativas de compra da minha terra. Graças a Deus, sempre pensei nos meus filhos e hoje um deles possui um foodtruck que é um sucesso no nosso quintal – comemorou Seu João.