Olha, se o você for lá pras bandas de Rio Branco do Sul, mais precisamente no Boqueirão da Serra, vai ouvir muita história de arrepiar os cabelos. Mas essa que eu vou te contar não é conversa fiada, não; é o causo de um homem que quase pôs a mão na riqueza, mas a coragem lhe faltou na hora do “vamos ver”.
Dizem que, numa dessas tardes em que o sol parece que tá se escondendo com pressa, esse sujeito resolveu se embrenhar na mata. Ele foi beirando o rio, subindo, cortando o mato no peito, até que chegou no famoso Saltão — aquela cachoeira bruta que despenca lá embaixo, onde o barulho da água abafa até pensamento.
Pois bem. Ele tava lá, recuperando o fôlego, quando, do nada, o frio subiu pela espinha. No meio daquela névoa da água batendo nas pedras, surgiu uma figura. Era uma senhora bem velhinha, de cabelos branquinhos como algodão e umas roupas de um tempo que não volta mais, tudo muito limpo e antigo. Ela se sentou numa pedra, com uma calma de quem é dona do lugar, e fixou o olho no homem.
Com uma voz que não era nem de raiva nem de pressa, ela estendeu a mão e chamou: — “Venha, meu filho… Chegue aqui. O que tá guardado debaixo de onde eu tô sentada, eu deixo você levar. Pode pegar que é seu.”
O homem gelou, o coração batia forte. Ele olhava para a velha, olhava para o chão e pensava: “Isso não é deste mundo”. O medo foi maior que a ambição. Ele travou, não deu um passo. A mulher continuou chamando, mas o sujeito não aguentou: deu meia-volta e disparou mato adentro, correndo que nem bicho acuado até chegar em casa.
Passado o susto, a ganância cutucou o peito. Ele contou a história pra um amigo e os dois resolveram voltar lá. Mas, em vez de fé, levaram ferro: foram com um pá escavadeira. Queriam arrancar o tesouro no braço. Cavaram o chão todo, reviraram pedra, fizeram buraco que não acabava mais… e nada. Nem um tostão furado.
Anos depois, esse mesmo homem, ainda amargurado, contou o ocorrido para um entendido de ocultismo. O sabichão só balançou a cabeça e explicou: — “Amigo, ouro de espírito é coisa delicada. Ele se ofereceu pra você. Como você não pegou na hora da graça, a guardiã mudou o tesouro de lugar. A terra “comeu” o que era seu. Agora, aquilo só volta a aparecer se ela quiser, e para quem ela escolher.”
Desde aquele dia, todo mundo que passa pelo Saltão, fica de olho nas pedras, no meio da neblina… Todos ficam esperando ver o vulto da velhinha de branco, na esperança de que ela dê uma segunda chance de tirar o tesouro escondido que os antigos garantem que ainda tá lá, só esperando o homem certo.
